quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Cuore Sportivo

Alguma vez estiveram num supermercado e perguntaram porque é que a garrafa de Real Lavrador está a um euro e pouco e a de Camigliano Brunello di Montalcino 98 toscano está a sete contos na moeda antiga? São os dois vinho? São. Vêm ambos em garrafas de vidro mais ou menos parecidas, ambos têm rótulo de papel, rolha de cortiça... Para quem não aprecia vinho sem ser com a santa da sardinha não faz muito sentido pagar não-sei-quantas vezes mais por algo que pode perfeitamente ser substituído com algo mais barato. O mesmo se passa com os whiskys, dos quais sou grande apreciador devo dizer. Ora senão vejamos: um Cutty Sark ou um Jameson's, ambos whiskys mais jovens, malte; o J&B, Logan's, William Lawson's, whiskys mais séniores, sabor mais intenso. Todos estes vos darão o sabor de um bom malte, sem dúvida. Mas o nosso olho foge sempre para a garrafinha bonita na caixa de madeira que diz James Martin's 20 Years Old. Porque será que é tão caro? Mesmo das marcas mais correntes de 15 anos faz assim tanta diferença? A questão é que honestamente não sei.

"Mondeo é Ford. Mustang é Ford. Mondeo é Mustang? Não. Mas... E se fosse Mustang Light?"

O mesmo se passa com os carros. Compram um Mondeo. Mondeo é Ford. Mustang é Ford. Mondeo é Mustang? Não. Mas... E se Mondeo fosse Mustang light? Claro que não é. Mas há uma marca que faz Ferrari e Maserati light. Não há uma única alma neste mundo automóvel que não a conheça as palavras Alfa Romeo. Uma marca italiana quase centenária que a maioria conhece devido aos sérios problemas de fiabilidade. Mesmo se conhecerem só as piadas sobre ela. Sim, é assim tão má.


Fazemos fast-foward 97 anos na história da Alfa (fundada em 1910, por isso não se matem a fazer contas, é hoje). Vinha na Infante Dom Henrique quando reparo num BMW Série 3 dos novos, um E90 em preto, provavelmente um 320d. Pensei "sim senhor, aí está um carro para mim" quando o meu pensamento foi interrompido por um Alfa GT preto estacionado a cerca de 10 metros do Série 3. E o pensamento ficou por aí. A verdade é que ao ver o Alfa ali todos os pensamentos de condução segura, precisa e formal do alemão se esvaniram. De repente eu só queria estar ao volante do Alfa numa longa estrada secundária com uma paisagem de tirar o fôlego. Esqueçam iDrives e mariquices. Esqueçam terem um carro com o qual possam sempre contar que funcione. Eu queria o Alfa.

E não é só o distintivo no capot. Senão vejam, ponham os seguintes lado a lado - BMW Série 3: excelente comportamento, o eterno rival do Mercedes Classe C; Volvo S60 - tão seguro que coçar as virilhas passa a desporto radical; Lexus IS220 - é bonito, lá isso é, mas é japonês e enfadonho; Alfa Romeo 159. Digam honestamente que o 159 não é o mais bonito de todos eles. Aquela grelha triangular, aqueles seis faróis, aquela linha do capot, aquela traseira... Lá dentro também se destaca da concorrência. Linhas muito mais arrojadas que fazem os engenheiros alemães gritarem "Nein!!!" e puxarem os cabelos. Não posso dizer muito mal deles, pois é graças a um alemão que a Alfa Romeo melhorou e muito em termos de construção... Mas enfim, são tipos engraçados.

"Aquela grelha triangular, aqueles faróis, aquela linha do capot (...). Linhas muito mais arrojadas que fazem os engenheiros alemães gritarem "Nein!!!" e puxarem os cabelos."

Deixemos o 159 e o 156 de duas portas, perdão, o GT, de lado. Vamos para o que na minha honesta opinião é um dos carros mais lindos que se podem ver hoje na estrada, o Brera. Esqueçam a Mona Lisa, esqueçam a Capela Cistina. Isto é a obra-prima italiana! Em preto fica mais sexy que os posters da Cláudia Vieira nas paragens de autocarro. A Alfa Romeo conseguiu algo que transmite a paixão e alma dos grandes desportivos italianos ("apenas" dos Ferrari e Maserati) para as massas em termos de prazer de condução e diversão. A linha é do 159 mas mais desportiva. Um coupé de linhas perfeitas. Simplesmente espectacular.


Sem dúvida, cuore sportivo.


João Neves

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